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sábado, 9 de outubro de 2010

GAFANHA?

Origens do vocábulo Gafanha

Fernando Martins

Ao longo da minha vida abordei vezes sem conta a questão da origem do vocábulo Gafanha. Outros o fizeram do mesmo modo. Todos na ânsia de descobrir qual a sua verdadeira fonte. Uns ficam convencidos duma razão e outros tantos discordam dela. Não vale a pena voltar ao assunto em pormenor, porque estaria a malhar em ferro frio. Aqui deixo, contudo, uma síntese, só para dizer que talvez valha a pena alertar os nossos concidadãos para a decifração do enigma, como passatempo interessante. Só isso.
Por norma descartamos a ideia dos gafos (leprosos), muito embora eles existissem na região de Vagos e Mira. Ainda há poucos anos foram detectados alguns casos. O Hospital Rovisco Pais não foi instalado na Tocha por acaso.
A gadanha, que a MG refere, até estaria em sintonia com o linguajar dos primeiros gafanhões, habituados que estavam a trocar as consoantes. Ainda hoje há quem o faça.
Gafar como imposto e vasilha para transportar sal podia, muito bem, estar na origem da palavra Gafanha. E sal sempre por aqui houve, desde tempos imemoriais. Pinho Leal, no seu dicionário “Portugal antigo e Moderno”, diz, em 1874, que Gafanha podia significar o «lugar onde se paga o gafar» ou «ao qual não se pode ir sem pagar o gafar».



Resumo elaborado por João Gonçalves Gaspar


A hipótese de terra gafada, com as suas gretas que as areias, cobertas de lamas, mostravam quando o sol batia, fica à mercê da nossa imaginação.
A gafanha, mulher gafada, que de Aveiro para aqui teria sido desterrada, por ter morfeia, sendo por isso desprezada, também não me repugna.
Gafanha, mato lá para os lados de Sangalhos, há muitas décadas, não deixa de ser um motivo para, tipo charada, nos entretermos.
O gafanho ou gafanhão (saltão), gafanhoto, não me parece lógico. Por que razão nos haviam de ligar àquele insecto? Nem por aqui havia verdura para seu alimento…
Gafanho, nome de tojo, planta rasteira, será mais um caminho para seguir, tal como gatanho (tojo-gatão), sem perder muito tempo.
Gafanha de Galafanha, proveniente esta de Gala (terra alagada) mais Fânia (junco), terá a sua vertente etimológica, ao jeito de quem anda a escolher palavras para chegar à Gafanha de hoje.
Gafano seria, portanto, o homem destas terras, que estava gafado (agarrado, submetido) pelas doenças, pagando a passagem do esteiro. Gafânia ou Gafanha seria portanto a terra dos Gafanos.
Posto isto, é justo afirmar que andei no encalço de alguns estudiosos: Padre Rezende (MG), Joaquim da Silveira (MG), José Leite de Vasconcelos (EP), Gonçalves Viana (EP). João Gonçalves Gaspar (BCGN), Manuel Maria Carlos (JT), Pinho Leal e pesquisas próprias em dicionários e outras leituras avulsas, sem nunca ter encontrado, garantidamente, a origem da palavra Gafanha.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Primórdios da Gafanha - I

Século XVII — Os registos mais antigos garantem que nesta faixa se fixaram, no século XVII, os avós dos gafanhões que, no princípio do século XX, quiseram organizar-se como comunidade administrativa e religiosa, pugnando por aquilo que consideravam ser justo para a sua identidade, enquanto se reviam como sociedade organizada, trabalhadora e solidária. Eram fundamentalmente agricultores. Ainda não seriam identificados como gafanhões.


1677 — Em 1677, afirma o Padre Resende na sua MG, que «São feitos aforamentos por leiras, sendo de concluir que a cultura dos areais da Gafanha fosse anterior a essa data. Seriam seus agricultores os primitivos povoadores da Gafanha: Manuel da Rocha Tanoeiro, de Vagos; António Matias; Manuel Rodrigues Chino; Manuel Alves Zagalo; Domingos Francisco Bico.»

De 1677 a 1727 — O «Conde de Aveiras, ao tempo directo senhorio das Quintas da Mó-do-Meio, Preguiceiro e Carramão, isto é, de toda a orla que borda a Ria desde o actual Estaleiro até à mota que dá passagem para a Costa Nova», faz «vários aforamentos dessas quintas por leiras e, por último, vende-os ao capitão-mor, Luís da Gama Ribeiro Rangel de Quadros e Maia, governador da Barra de Aveiro e Juiz da Alfândega e seu pai Carlos Ribeiro da Maia, de Aveiro, que por sua vez as venderam por arrematação a Francisco António Camelo, o qual as deixou por herança a seu filho Fernando José Camelo, e este juntamente com toda a sua casa as deixou por testamento a seu segundo primo João Lopes Ferreira». (MG)

1800 — A Gafanha era já bastante povoada, na sua maioria por foreirosm, e em 1808, a 3 de Abril, Luís Gomes de Carvalho, «pelas sete horas da tarde, abrindo um pequeno sulco com o bico da bota, no frágil obstáculo que separava a ria do mar, deu passagem à onda avassaladora da vazante para a conquista da libertação económica, depois de uma opressão que durara sessenta anos», como escreveu o Comandante Rocha e Cunha, em 1923. É altura de sublinhar que a Gafanha muito ficou a dever à nova Barra de Aveiro, podendo nós, com propriedade, dizer que a nossa terra é filha do porto.

1818 — Dez anos depois, em Abril de 1818, é assinada a escritura da Capela de Nossa Senhora da Nazaré no lugar da Gafanha e em 21 de Março de 1835 dá-se a transferência religiosa da Gafanha, de Vagos para Ílhavo. A desanexação civil acontecerá, oficialmente, em 31 de Dezembro de 1853. Porém, somente em 24 de Outubro de 1855 é que, na prática, tal aconteceu. Há quem defenda que foi em 19 de Setembro de 1856.

FM